Sudoku · 7 min de leitura

História do Sudoku

Do jornal francês Le Siècle em 1895 ao americano Howard Garns em 1979, da editora japonesa Nikoli em 1984 ao The Times de Londres em 2004. A travessia de três continentes em quase 130 anos.

Sudoku parece japonês. O nome é japonês, a estrutura visual lembra um quebra-cabeça oriental, a popularidade explodiu primeiro nas revistas de Tóquio nos anos 80. Mas o jogo é mais velho que isso, é mais europeu que isso, e a história completa atravessa três continentes em quase 130 anos. Vale conhecer.

A primeira aparição documentada de algo muito próximo do Sudoku moderno foi em 1895, no jornal francês Le Siècle. Aparece como problema número 36 do passatempo semanal de matemática recreativa. Era uma grade nove por nove, com números, e a regra básica de não repetir nenhum número por linha ou coluna. Faltava só uma camada (os blocos três por três) pra ser o Sudoku que conhecemos hoje. O jornal La France competidor adicionou, alguns anos depois, exatamente essa camada. O jogo então some por décadas, sem nome próprio, sem cobertura, sem público.

Em 1979, oitenta e quatro anos depois, um arquiteto americano aposentado chamado Howard Garns reinventa o jogo. Garns trabalhava como freelancer pra editora Dell Magazines e propôs um puzzle de números em grade 9x9 com a estrutura quase idêntica à do Le Siècle. Garns batizou o jogo de Number Place. Saiu em uma revista da Dell, sem alarde. Garns morreu em 1989 sem saber que tinha criado o que viria a ser o jogo de lógica mais popular do século 21.

Foi o Japão que pegou o Number Place e transformou em fenômeno. Em 1984, a editora Nikoli publica o puzzle em uma de suas revistas de quebra-cabeças, com algumas modificações estruturais que aumentariam a elegância dos puzzles (em particular, número fixo de pistas iniciais e simetria visual no posicionamento delas). O editor da Nikoli, Maki Kaji, deu ao jogo o nome japonês: sūji wa dokushin ni kagiru, que pode ser traduzido como os números devem ser únicos. Encurtado depois pra Sudoku. Maki Kaji morreu em 2021, conhecido como o pai do Sudoku.

Tabuleiro do Sudoku BLA com pistas iniciais, sem destaque, no tema Areia BLA.
Em Goiânia, no século 21, o mesmo tabuleiro que o Le Siècle imprimia em 1895. Trinta gerações de jogadores depois.

Sudoku virou febre no Japão dos anos 80 e 90, mas continuava produto de nicho fora do país. A virada veio em 2004. Wayne Gould, um juiz neozelandês aposentado, descobriu Sudoku em uma livraria de Tóquio e ficou obcecado. Voltou pra Nova Zelândia, escreveu um programa de computador pra gerar puzzles automaticamente e ofereceu o jogo pra The Times de Londres. The Times publicou o primeiro Sudoku no dia 12 de novembro de 2004. Em menos de seis meses, o jogo tinha entrado em mais de 100 jornais ao redor do mundo. Em 2005, o New York Times também começou a publicar.

O timing da viralização explica parte do impacto. Em 2004, smartphones ainda eram brinquedos da elite. O iPhone só apareceria em 2007. Internet de banda larga ainda não era universal. As pessoas tinham tempo de jornal, e Sudoku encaixou perfeitamente nesse formato. A primeira geração de jogadores de Sudoku no mundo aprendeu o jogo numa página impressa, com lápis e borracha. Era passatempo de café da manhã, de fila de banco, de espera de avião sem celular.

Quando o iPhone chegou em 2007, e a App Store em 2008, Sudoku migrou pro digital com facilidade. Foi um dos primeiros tipos de jogo a aparecer no iPhone, e nunca saiu. Hoje existe ecossistema enorme de apps de Sudoku, alguns bons, vários ruins, todos competindo pelo mesmo jogador que aprendeu o jogo no Le Siècle, no Number Place, na Nikoli ou no The Times, três gerações atrás.

Sudoku BLA entra nessa história como o primeiro app brasileiro pensado pra essa tradição. Sem ad, sem login, sem rede social embutida. Funciona offline, como o jornal funcionava. Tem tipografia editorial, como o jornal tinha. É feito em Goiânia, longe do Le Siècle e da Nikoli e do The Times, mas dentro da mesma linhagem editorial. Você pode baixar na App Store. E quando jogar, pensa um pouco no Maki Kaji, no Howard Garns, no Wayne Gould e nos editores anônimos do jornal francês de 1895.

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