Cultura · 7 min de leitura

Lanterna do telefone, o objeto que substituiu três coisas

Quando a lanterna virou parte do telefone, e o que ela carrega de signo cinematográfico desde Twin Peaks, Stranger Things e Stephen King. Como a Lanterna BLA devolve um pouco de cerimônia ao gesto.

A lanterna virou parte do telefone em junho de 2010, quando a Apple lançou o iPhone 4 com LED na câmera traseira. Antes disso, lanterna no iPhone era app de terceiro, que usava só a tela branca (sem hardware dedicado). Com o LED, o iPhone passou a ter lanterna de verdade, e três objetos físicos começaram a desaparecer da casa. A lanterna de cabeceira, o fósforo ou isqueiro pra acender vela em queda de energia, e a lanterna de chaveiro de plástico que cabia no porta luvas do carro. O iPhone substituiu os três, e o usuário aceitou a substituição sem cerimônia.

Em 2013, com o iOS 7, a Apple colocou um atalho de lanterna no Control Center. Foi quando o uso explodiu. Antes, pra acender a lanterna era preciso abrir um app dedicado. Depois, era um swipe pra cima a partir da parte de baixo da tela. Em iPhone X e posteriores, o atalho virou um botão fixo na Lock Screen. Em iPhone com Action Button (iPhone 15 Pro em diante), virou ação atribuível ao botão lateral. Cada iteração tornou a lanterna mais acessível, e mais usada, e mais difícil de imaginar viver sem.

Mas a lanterna na ficção tem um peso simbólico que precede o iPhone em décadas. Em Twin Peaks, série de David Lynch de 1990, a lanterna do investigador Dale Cooper é parte central da estética. Há um plano em que ele entra na floresta com a lanterna acesa, e a luz amarela cortando o nevoeiro vira sinal de que algo está prestes a acontecer. Em Stranger Things, série dos irmãos Duffer de 2016, o xerife Hopper anda com uma Maglite enorme presa no cinto, e sempre que ela acende é porque o personagem está entrando num lugar onde algo perigoso pode estar. A lanterna na ficção quase nunca aparece em situação calma. Aparece quando alguém está sozinho num lugar que não deveria estar.

Na literatura, Stephen King usa lanterna recorrente em livros de horror. Em It, os garotos da turma dos Perdedores descem ao esgoto de Derry com lanternas, e cada lanterna acesa marca momento de tensão. Em The Mist, lanterna no supermercado virado pra fora vira fonte de informação sobre o que pode estar do outro lado da névoa. Em Pet Sematary, lanterna do protagonista atravessa cemitério à noite, e quando a luz começa a falhar, o leitor já sabe que algo vai dar errado. Lanterna na narrativa funciona como prolongamento da consciência. A luz é o que o personagem sabe, o escuro é o que ainda não sabe. Quando a lanterna apaga ou enfraquece, a consciência do personagem também.

A lanterna do telefone herdou esse signo. Quando alguém abre a lanterna do iPhone, está em alguma das mesmas categorias narrativas. Investigação (procurar chave no chão), inquietação (atravessar quarto à noite), salvação (apagão repentino), busca (gato sumido). Mas perdeu o ritual. A Maglite do Hopper tem peso na mão, tem clique mecânico, tem feixe focável. A lanterna do iPhone tem swipe. É mais cômoda, mais sempre disponível, infinitamente mais leve. Mas perdeu o gesto.

A Lanterna BLA é uma tentativa de devolver alguma cerimônia. Não no sentido de adicionar fricção (o app abre rápido, é exatamente o ponto), mas no sentido de tratar o ato de acender uma lanterna como decisão, e não como reflexo. Os seis presets curados pedem que você escolha o cenário antes de acender. Banheiro de madrugada não é a mesma luz que Quarto escuro. Procurar algo não é a mesma luz que SOS. A escolha leva um segundo, mas o segundo é editorial. Devolve, em formato de app, um pouco do peso narrativo que a lanterna sempre teve.

Esse posicionamento é coerente com o que a BLA faz no resto do catálogo. Sudoku BLA é app de Sudoku que pede que você jogue Sudoku, não fica empurrando outras coisas. Notas BLA é app de notas que transforma texto em carrossel pra Instagram em um toque, sem florear. Lanterna BLA é app de lanterna que acende a luz que cabe na cena. Cada produto faz uma coisa, e faz com peso editorial maior do que o utilitário pediria. É a tese do estúdio, aplicada ao objeto digital mais simples possível, uma lanterna.

Quando você abrir o app pela próxima vez, na madrugada que vier, vai estar usando o objeto que substituiu três outros (a lanterna de cabeceira, o fósforo, a lanterna de chaveiro), mas que carrega um símbolo cinematográfico que vem desde Twin Peaks, Stranger Things, Stephen King. Acende rápido. Não acorda ninguém. E faz parte de uma tradição narrativa em que lanterna sempre foi o que separa o que se sabe do que ainda não se sabe.

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Ícone do Lanterna BLA

Lanterna BLA

Lanterna que não acorda ninguém. Acende rápido, brilha tela ou flash. Seis presets. SOS em Morse. Timer pra desligar. Sem propaganda, sem login.

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Como uma lanterna acende no iPhone, e por que o app pede câmera